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Crime da Samarco em Mariana pode piorar surto de febre amarela

Surto é comum em regiões florestais, mas pode chegar às cidades devido ao desequilíbrio ambiental. No município capixaba de Colatina, também afetado pelo deslizamento da barragem da Samarco/Vale/BHP, foram catalogadas mortes de macacos. As causas ainda seguem em fase de investigação.

O estado de Minas Gerais vive nos últimos tempos um surto de febre amarela. O mais recente balanço da Secretaria de Estado da Saúde (SES), publicado na quarta (18), relevou oito mortes confirmadas pela doença e 53 suspeitas. Já o número de pessoas com sintomas chegou a 206. Os óbitos aconteceram em cidades dos vales do Rio Doce e Mucuri, regiões que até agora possuem a maior incidência de diagnósticos positivos.

Biólogos apontam que a tragédia de Mariana, em novembro 2015, pode ter relação com o aumento da doença, visto que as mudanças ambientais influenciam a saúde dos animais, inclusive a dos macacos - principal hospedeiro do vírus. 

Ainda no ano passado, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) já havia alertado para o risco de um possível surto de dengue na região atingida. A epidemia foi confirmada na cidade de Barra Longa em 2016. Sobre a febre amarela, o movimento afirma que é inegável que o desequilíbrio ambiental gerado pelo desastre traga consequências graves para a saúde da população. Defende ainda que é fundamental que o governo e as empresas responsáveis não ignorem o alerta. 

“É um surto que apareceu nas imediações da Bacia do Rio Doce. Antigamente, o ciclo da febre silvestre se fechava na floresta, entre mosquitos e macacos, mas o avanço da mineração e das construções de barragens e de outros grandes empreendimentos vem fazendo com que ela se aproxime do litoral nos últimos 15 anos”, explica Thiago Alves, da coordenação do MAB em Minas Gerais. Ele explica que o rompimento da barragem destruiu milhares de hectares de mata e poluiu as águas, o que provavelmente ainda vai gerar uma série de outros problemas de saúde. 

As obras realizadas pela Samarco logo após a tragédia levaram para a região muita sujeira, fazendo com que em outubro do ano passado os moradores denunciassem o “canteiro de obras” que se formou no local. O rejeito retirado da cidade de Barra Longa era depositado no terreno onde antes ficava o parque de exposições e o campo de futebol, área próxima das casas e dos criadouros de animais dos moradores. “Não há dúvida de que as condições favorecem o surgimento de doenças. Além disso, ainda há gente precisando beber água diretamente do rio contaminado”, acrescenta Thiago. 

Doença pode se alastrar para as cidades

A pediatra e infectologista Aline Bentes, da rede de Médicos e Médicas Populares, explica que é importante lembrar que a febre amarela é uma doença cíclica, que ocorre geralmente de sete em sete anos, e que já era esperado um surto epidêmico para o período entre 2016 e 2017 em regiões florestais. O grande medo agora, segundo a especialista, é que a doença deixe de ser silvestre e se expanda de vez para as áreas urbanas. 

“A doença fica na floresta e no início do ano chove muito, o que aumenta os casos em macacos e nos trabalhadores da agricultura. É possível inferir que o deslizamento da barragem tenha matado predadores naturais do mosquito transmissor, como os sapos. Isso faz com que aumentem os hospedeiros e que eles possam estar se aproximando das cidades por causa do desequilíbrio ecológico”, afirma. No entanto, estudos científicos que podem assegurar a relação ainda são insuficientes. 

A mortalidade da febre amarela pode chegar a 50%, matando metade das pessoas que contraem o vírus. Até agora, o mosquito que transmite a doença é o Haemagogus. Na cidade, a transmissão se dá pelo Aedes aegypti. “Se o Aedes pica alguém com febre amarela e ela se espalha, a febre urbana pode ter efeitos muito piores do que a dengue [que tem cerca de 1% de mortalidade], zika e chikungunya”, avalia a profissional.

Vacine-se!

A febre amarela não possui tratamento específico, sendo a vacinação a única forma de evitar a doença. Dados científicos comprovam que, se vacinado duas vezes durante a vida, o cidadão pode se considerar imune ao vírus. Por isso é importante que cada um confira seu cartão de vacina. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), a prioridade é imunizar os moradores ou as pessoas que viajarão para as áreas de risco (Vales do Rio Doce e Mucuri). Elas devem procurar os postos de saúde mais próximos.

Fonte: Brasil de Fato

ANDES