Capixabas decretam luto até 25 de fevereiro

O ato é em memória às vítimas de homicídios por ocasião da greve da PM/ES. No movimento paredista, que começou em 4/2 e terminou em 25/2 de 2017, mais de 200 pessoas foram assassinadas, em sua maioria, jovens negros. Leia aqui o decreto de luto popular

Rosimar Martins, foi uma das mães de jovens assassinados que ocupou a Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, durante ato político cultural organizado por entidades ligadas ao movimento de Direitos Humanos. Rosimar exigiu justiça e apuração da morte do filho, Felipe Martins Paiva, de 24 anos.  “O inquérito para investigar o assassinato só foi aberto após muitas idas e vindas à delegacia e com o apoio dos movimentos sociais. Até o momento a polícia não apurou nada”, disse desolada.

Moradora do bairro Alvorada, em Vila Velha, Rosimar está inconformada com a omissão do Estado e com a falta de amparo. “Ocupamos a praça para dizer bem alto que nossos mortos têm nome e sobrenome”. Dezenas de cruzes com a identificação das vítimas foram fincadas no jardim da praça.

O evento, ocorrido na noite de terça (4), contou com cerimônia inter-religiosa, lançamento de decreto de luto popular e de edital para elaboração de proposta de monumento em memória às pessoas mortas durante a greve da PM; além de intervenções artísticas e culturais.

Crimes.  Em fevereiro de 2017, a onda de assassinatos, roubos e furtos deixou a população refém do medo. De acordo com Lula Rocha, do Círculo Palmarino, que vem acompanhando desde o início o caso Greve da PM, o número de assassinatos ultrapassou 200: 80% das vítimas eram homens, 90% negros e pardos e mais de 50%, jovens com idade entre 18 e 29 anos.

Muitos dos crimes sequer foram apurados e outros ainda não tiveram as investigações concluídas pelo Poder Público. Lula explicou que, após três anos, várias organizações se mobilizam em prol dos direitos das vítimas e de seus familiares, como o Círculo Palmarino, o Fórum Capixaba de Lutas Sociais, do qual a Adufes faz parte, o Fórum Igrejas e Sociedade em Ação e o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH).

As famílias continuam lutando por respostas e justiça. "Diversos inquéritos foram arquivados sem o indiciamento dos eventuais autores e o Governo do Estado não desenvolveu medidas para reparar os familiares”, destacou Lula Rocha. Para ele, a ocupação da praça e a decretação do luto popular visam alertar os capixabas sobre a omissão do estado frente à crise da PM e o aprofundamento do extermínio da juventude negra.

Memória das vítimas. A professora Ana Heckert, do Fórum Capixaba de Lutas Sociais, destacou que os movimentos aguardam resposta do governo para o pedido de criação de uma Política Estadual de Assistência às Vítimas e Familiares de Vítimas da Violência. “Após um ano, continuamos aguardando a resposta da solicitação à Secretaria Estadual de Direitos Humanos”, afirmou.

Para Heckert, o Estado foi o principal responsável pelas mortes, devido ao seu regime de austeridade fiscal que privilegia o alegado desenvolvimento econômico em detrimento de vidas humanas. “Após as mais de 200 mortes, o governo não desenvolveu qualquer política de reparação aos familiares. Elas e eles têm o direito de saber em que circunstâncias seu ente querido foi morto e chorar”.

Ela lembrou que, na época da greve da PM, o Governador Paulo Hartung comparou a situação a um ‘sequestro da população’, mas se negou a negociar as reivindicações dos policiais, deixando a população à deriva. “Foram vítimas os moradores das periferias, aqueles que vivem nas comunidades humildes e que sofrem cotidianamente com a ação de um Estado cada dia mais violento”, afirmou.

Atividades culturais. No ato, os/as jovens usaram a poesia e a música como uma forma de resistência e crítica ao genocídio da juventude. Nos versos, o coletivo Empoetem-se trouxe a realidade dos/as jovens periféricos, com críticas à sociedade racista e excludente.

Já o bloco Afro Kizomba, que participou do ato em memória aos jovens assassinados, trouxe o samba como forma de protesto. “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer". A letra que é o samba enredo do Kizomba foi inspirada no livro de Conceição Evaristo "Olhos D'Água", uma das maiores escritoras negras. No ato, o grupo Afro convidou o público para mais uma atividade de resistência. Será no sábado de carnaval (22), ocasião em que será apresentado o samba escrito por Monique Rocha e Jean Carlos.

Edital dos Fórum Capixaba de Lutas Sociais, Igrejas e Sociedade em Ação e Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH)

Já estão abertas as inscrições para o edital que selecionará proposta de monumento em memória aos mortos durante a greve da PM/ES. Podem participar artistas, artesãos, estudantes e entidades de direitos humanos.  As inscrições podem ser feitas pelo email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. até o dia 29 de junho.

A comissão julgadora será composta por representantes das organizações proponentes e três artistas convidados. O resultado final será divulgado em 10/8. Conforme o documento, “o desafio aos participantes deste edital é criar uma intervenção artística que demarque a morte de mais de 200 capixabas e, ao mesmo tempo, expresse a luta popular por uma sociedade menos excludente, menos racista, menos violenta”. Leia aqui o Edital

Criação do Fórum Capixaba de Lutas Sociais. Movimentos sociais criaram o fórum após a greve da PM, em 2017. O grupo denunciou a política de ajuste fiscal do governo Paulo Hartung e os assassinatos de jovens negros. O Fórum Capixaba de Lutas Sociais nasceu em oposição à política de austeridade do governo PH e os efeitos de uma gestão que supervaloriza executar o saneamento financeiro à custa do arrocho dos servidores e à extinção de políticas públicas sociais.

Tais medidas fazem parte da ampliação de uma política de morte e encarceramento.  “Não podemos deixar esse trágico momento da história do nosso Estado cair no esquecimento, sob pena de se repetir”, advertiu Ana Heckert, uma das fundadoras do fórum. O grupo vem fazendo a articulação com diversos movimentos sociais e sindicatos. A Adufes é uma das entidades que compõem o fórum.

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Fonte: Adufes

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